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A dor crônica e a memória. Qual a relação?

A Dor Crônica e a Memória. Qual a relação?

Quando um tecido é traumatizado, ocorre a liberação local de substâncias químicas, imediatamente detectadas pelas terminações nervosas. Estas disparam um impulso elétrico que corre até a parte posterior da medula espinal. Nessa região, um grupo especial de neurônios se encarrega de transmiti-lo ao córtex cerebral, área responsável pela cognição, percepção, localização e interpretação da dor.

Para se ter uma ideia da velocidade de transmissão do impulso elétrico, é só pensar no tempo decorrido entre encostarmos a mão num objeto quente e nos afastarmos dele. Esse circuito complexo de fibras nervosas que conduzem o sinal está associado à liberação de mediadores químicos, responsáveis pela sintonia final do mecanismo da dor. De um lado, o organismo precisa da dor para defender-se, mas o processo não pode ser perpetuado.

Com a finalidade de impedir que a dor persista mais tempo do que o necessário, os sinais que chegam ao cérebro e se tornam conscientes vão estimular a liberação de substâncias chamadas endorfinas e encefalinas, que inibem a propagação do impulso elétrico e funcionam como analgésicos endógenos.

O mecanismo de inibição da dor é tão importante para a sobrevivência do organismo quanto o circuito responsável por sua percepção. Se não fosse ele, a dor de um pequeno corte persistiria enquanto durasse o processo de cicatrização.

Dores crônicas podem ser devidas tanto a desordens do sistema responsável pela percepção quanto da inibição da dor. A fibromialgia, por exemplo, uma doença debilitante, causadora de dores musculares crônicas, muitas vezes não diagnosticada pelos médicos, é tida hoje como consequente a um desarranjo nos mecanismos de inibição da dor.

É um erro considerar a dor crônica como uma versão prolongada da aguda. Quando os sinais de dor são gerados repetidamente, os circuitos neurológicos sofrem alterações eletroquímicas que os tornam hipersensíveis aos estímulos e mais resistentes aos mecanismos inibitórios da dor. Disso resulta uma espécie de memória dolorosa, guardada na medula espinal.

Estudos recentes tem demonstrado que essa memória dolorosa está ligada a mediadores químicos muito semelhantes aos envolvidos no processo intelectual de memorização. O conhecimento detalhado desses mediadores levará à descoberta de analgésicos mais potentes e com menos efeitos colaterais.

Os circuitos nervosos responsáveis pela dor crônica são tão diferentes daqueles associados à dor aguda, que muitos autores propõem nomes diferentes para caracterizar os dois processos: eudinia para as dores agudas e maledinia para as crônicas.

Dor crônica é uma doença debilitante com consequências nefastas para a condição física, psicológica e comportamental. Seus portadores desenvolvem depressão e incapacidade cognitiva, laboral e interpessoal, além de um débito do sono profundo, que por si só afeta a memória. Tais sintomas costumam ser interpretados como característicos de patologias psiquiátricas, quando, na verdade, refletem apenas a semelhança que existe entre dor e memória. Um cérebro que está ocupado em lidar com uma dor crônica não consegue gerir convenientemente a troca de informação que é necessária para gerir e reter as memórias temporárias. Dito de uma forma muito simplista, esta é a conclusão do estudo realizado por uma equipe do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). O trabalho oferece uma explicação fisiológica para a redução de memória de curto prazo, prevalente em doentes com dor crônica.

Vasco Galhardo, pesquisador do IBMC que coordenou a pesquisa, resume os resultados: “Este trabalho contribui para a demonstração de que a dor crônica induz alterações no funcionamento cerebral em circuitos que não estão diretamente ligados ao processamento tátil ou doloroso”. Sustenta-se ainda que “são, também, afetados circuitos neuronais relacionados com processamento de memórias e emoções, o que pode levar a um repensar de estratégias mais abrangentes para o tratamento de patologias dolorosas”. 








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