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Água Alcalina? Por quê?

O consumo de água alcalina, também chamada de “água da vida”, está na moda. Falam de suas propriedades antioxidantes, de controle hormonal e até mesmo de sua importância na prevenção de doenças degenerativas, sobretudo o câncer. Eu questiono. Questiono porque mesmo antes de estudar odontologia, já ouvia falar sobre a capacidade tampão dos fluidos corporais (apresentei um trabalho sobre a capacidade tampão da saliva na feira de ciências do colégio Singular, em Santo André - SP, no início da década de 90) e o controle renal do equilíbrio ácido-básico e, afinal, o estômago não é inundado por um fluido acidificado de nome suco gástrico? Como isso funciona então?

Para atingir a homeostasia, deve existir um balanço entre o aporte ou a produção dos íons hidrogênio e a sua efetiva remoção do organismo, papel desempenhado brilhantemente pelos rins, porém o controle preciso da concentração de íons hidrogênio do fluido corporal envolve muito mais do que sua simples eliminação pelos rins. Existem múltiplos mecanismos de tamponamento ácido-básico envolvendo saliva, sangue, células e pulmões, essenciais na manutenção das concentrações normais de íons hidrogênio no líquido intra e extracelular.

As atividades de quase todos os sistemas enzimáticos do organismo são influenciadas pela concentração de íons hidrogênio e, por conseguinte, as mudanças na concentração destes íons alteram, praticamente, todas as funções celulares e corporais.

O íon hidrogênio é o único próton livre, liberado a partir do átomo de hidrogênio. As moléculas que contém átomos de hidrogênio capazes de liberar íons hidrogênio em soluções são denominadas ácidos. Por exemplo, o ácido clorídrico (HCL) se ioniza na água e forma íons hidrogênio (H+) e cloreto (CL-). Uma base é um íon ou a molécula que pode aceitar um íon hidrogênio. Por exemplo, o íon bicarbonato (HCO3) pode se combinar com o íon hidrogênio e formar ácido carbônico (H2CO3). As proteínas do organismo funcionam como uma base, visto que alguns aminoácidos têm cargas elétricas negativas que prontamente aceitam íons de hidrogênio. Só a título de curiosidade, o termo alcalose refere-se à remoção excessiva de íons hidrogênio dos líquidos corporais, em contraste com a sua adição excessiva, denominada acidose.

O pH é inversamente proporcional à concentração dos íons hidrogênio, ou seja, um pH baixo (ácido) corresponde a alta concentração destes íons e vice-versa. O pH normal do sangue arterial é de 7,4 e o venoso e dos líquidos intersticiais, 7,35, em virtude das quantidades adicionais do dióxido de carbono (CO2) liberadas dos tecidos. O ser humano pode sobreviver algumas horas no limite de pH 6,8 e 8,0, o que, óbvio, não é recomendado. Em geral, o pH intracelular é ligeiramente mais baixo do que o plasmático, visto que o metabolismo celular produz ácido, sobretudo o H2CO3. O da urina pode variar entre 4,5 e 8,0, dependendo do estado ácido-básico do líquido extracelular. Um exemplo extremo de líquido orgânico ácido é o HCl, secretado no estômago pelas células oxínticas da mucosa gástrica. A concentração de íons hidrogênio nessas células é cerca de 4 milhões de vezes maior do que no sangue, com pH de 0,8.

Há três sistemas primários de regulação da concentração de íons hidrogênio nos líquidos corporais. O primeiro é o sistema químico de tampões ácido-básicos (tampão é qualquer substância capaz de ligar-se, reversivelmente, aos íons hidrogênio: tampão + H+ ↔ tampão H) dos fluidos corporais, que imediatamente se combinam com ácido ou com base; o segundo é o centro respiratório de regulação, que remove o CO2 e o H2CO3 do líquido extracelular, e o terceiro, os rins, que excretam urina ácida ou alcalina, reajustando a concentração de íons hidrogênio do líquido extracelular. Funciona assim: Diante de uma alteração, o sistema tampão age em segundos, porém não elimina os íons de hidrogênio do organismo, nem os adiciona, apenas os mantêm inalterados até que o equilíbrio seja reestabelecido. O sistema respiratório também atua em minutos a fim de eliminar o CO2 e, portanto, o H2CO3 do organismo. Essas primeiras duas linhas de defesa impedem a alteração excessiva da concentração dos íons hidrogênio até que a terceira linha, de resposta mais lenta, os rins, possa eliminar o excesso de ácido ou de base do nosso corpo. Embora a resposta renal seja relativamente lenta, os rins constituem, sem dúvida alguma, dentro do período de algumas horas a vários dias, o mais potente dos sistemas reguladores ácido-básicos.

Esse foi um assunto bastante discutido no VIII Congresso Brasileiro de Fisiologia Hormonal e Longevidade e, felizmente, a maioria dos endocrinologistas apresenta a minha linha de raciocínio. A Dra. Tarissa Petry, do hospital Oswaldo Cruz, afirmou que, se houver um consumo excessivo de substâncias ácidas ou alcalinas, o corpo regulará o pH do sangue. Ela não vê sentido no consumo da água alcalina prevenir tantas doenças e ainda disse que o estilo inadequado de vida, o acúmulo de estresse e ansiedade, o consumo excessivo de café e uma alimentação errada, escolha da maioria dos seres humanos, propicia a acidose corporal: “É querer tapar o sol com a peneira”.

Meu estudo levou-me à conclusão de que, embora o corpo humano produza (e ingira), diariamente, uma grande quantidade de substâncias ácidas (cerca de 80 miliequivalentes de hidrogênio por dia), consideramos baixas as concentrações de íons hidrogênio nos fluidos corporais (cerca de 0,00004 mEq/l), o que nos certifica da presença de tampões nestes líquidos. Eu estava certa. Há um exagero na importância do consumo de águas alcalinas e, sobretudo, no marketing que impulsiona a sua venda. O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Fabio Fraige Filho, afirma que filtros de ozônio, que prometem alcalinizar a água e melhorar a saúde, são apenas de interesse comercial. E cá entre nós, a moda é inventada por um sistema altamente capitalista, no qual o principal interesse é vender e, para isso, não existe pudor em enganar as pessoas. Para quem não simplesmente aceita e consome os produtos da moda, a salvação está no estudo e na pesquisa. A fisiologia humana não foi inventada, mas descoberta e descrita, disponível na beleza dos livros, como o de Guyton & Hall (traduzido e publicado pela editora Guanabara Koogan S.A. em 2002), que acabei de ler, aqui, na biblioteca da FOP - UNICAMP, em Piracicaba – SP, um dos meus lugares prediletos, onde eu adoro estar. (Danielle Louise Sposito Bourreau)








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